
Seminário Regional da CNBB Oeste 2 reúne dioceses de Mato Grosso e aponta caminhos para transformar a reflexão sobre a infância em compromisso concreto.
Com o tema “Fraternidade e o cuidado das Crianças” e o lema “Quem recebe uma criança em meu nome, a mim recebe” (Mt 18,5), a CNBB Regional Oeste 2 realizou, nos dias 31 de outubro e 1º de novembro, o Seminário Regional da Campanha da Fraternidade 2027, reunindo representantes de praticamente todas as dioceses de Mato Grosso. O encontro foi marcado pela reflexão sobre a realidade vivida pelas crianças e pela construção de caminhos pastorais e sociais para fortalecer sua proteção e promover sua dignidade.
Com a assessoria do Pe. Márcio Luiz Fernandes, CMF, os participantes aprofundaram a metodologia da Campanha da Fraternidade, desenvolvendo os três momentos que orientam sua reflexão: Ver, Iluminar e Agir. No dia 31 de outubro, foram trabalhadas as dimensões do Ver e do Iluminar, articulando a leitura da realidade brasileira com a Palavra de Deus e o ensinamento da Igreja. No dia 1º de novembro, a reflexão concentrou-se no Agir, buscando identificar compromissos e iniciativas capazes de responder aos desafios apresentados.
As contribuições de especialistas enriqueceram o debate. A Dra. Lenice dos Santos Barbosa, Secretária Adjunta do Sistema Socioeducativo e Políticas contra as Drogas/SEJUS-MT, apresentou aspectos da realidade de meninos e meninas atendidos pelo sistema socioeducativo, ressaltando a importância da prevenção e das parcerias entre o poder público e a Igreja. O Dr. Daniel Sagin, fundador da Desperta.IA e presidente da Comissão de Inteligência Artificial da OAB-MT, abordou os riscos do ambiente digital e os desafios educativos diante das novas tecnologias, destacando que proibir não basta: é necessário educar, acompanhar e orientar.
Durante as exposições, os exemplos apresentados e os casos compartilhados despertaram grande interesse entre os participantes. As intervenções foram marcadas por perguntas, relatos de experiências e solicitações de esclarecimentos adicionais, evidenciando a atualidade e a relevância dos temas para a realidade das dioceses e para os desafios da ação pastoral junto às crianças e aos adolescentes.
Também contribuíram Mário Lúcio Guimarães de Jesus e o Dr. Marcione Mendes de Pinho, da Fraternidade Cristã de Pessoas com Deficiência, trazendo reflexões sobre inclusão, acessibilidade e garantia de direitos. A presença de crianças durante o seminário reforçou a importância de escutá-las e reconhecê-las como protagonistas dos processos que envolvem sua vida e seu desenvolvimento.

Essa reflexão também interpela a própria Igreja. Não podemos propor à sociedade a cultura do cuidado se não estivermos dispostos a cultivá-la em nossas comunidades. A proteção das crianças precisa fazer parte de nossas práticas, dos processos catequéticos e formativos, da atuação das pastorais e do acompanhamento das famílias. Mais do que convocar os outros ao compromisso, a Campanha da Fraternidade deve representar, para a Igreja, uma oportunidade de rever atitudes, fortalecer suas práticas de acolhida e proteção e promover uma conversão pastoral que reconheça as crianças como sujeitos de direitos e participantes da vida comunitária.
O Agir: o maior desafio da Campanha
É justamente nesse compromisso que se encontra o maior desafio da Campanha: transformar a reflexão em ação. Entre os três momentos da metodologia da Campanha da Fraternidade, o Agir será sempre o maior desafio. Ver a realidade exige disposição para reconhecer seus problemas; iluminá-la pela Palavra de Deus requer discernimento e conversão. Mas agir significa transformar essa compreensão em escolhas, práticas e compromissos que envolvam toda a Igreja.

É preciso perguntar se as crianças têm participação efetiva nos processos catequéticos e formativos, se são verdadeiramente escutadas e se encontram nos ambientes eclesiais espaços seguros de acolhida, convivência e desenvolvimento. Também é necessário fortalecer o acompanhamento das famílias, reconhecendo suas dificuldades e oferecendo oportunidades de formação e apoio.

Mas a responsabilidade da Igreja não termina em seus espaços. O cuidado com a infância exige presença cristã nas diferentes realidades da sociedade. Isso significa aproximar paróquias, escolas, universidades, serviços de saúde, assistência social, conselhos de direitos, organizações da sociedade civil e poder público, construindo relações de cooperação em favor da proteção integral das crianças.

É nesse campo que o Agir ganha sua dimensão mais ampla: quando os cristãos compreendem que sua responsabilidade não se limita às atividades pastorais, mas alcança também a vida pública, a defesa de direitos, o fortalecimento das políticas de proteção e a construção de condições dignas para o desenvolvimento de todas as crianças.
A Campanha da Fraternidade 2027 nos oferece, portanto, uma oportunidade de olhar para nossas próprias práticas e ampliar nossa presença na sociedade. Não basta sensibilizar as comunidades durante a Quaresma. É necessário que o compromisso assumido continue na catequese, nas famílias, nas pastorais, nas instituições e nos espaços onde são tomadas decisões que afetam a vida das crianças.

A Palavra de Jesus continua sendo um chamado exigente para todos nós: “Quem recebe uma criança em meu nome, a mim recebe” (Mt 18,5). Receber é acolher, mas também proteger, escutar, educar e garantir condições para que cada criança cresça com dignidade.
Que a Campanha da Fraternidade 2027 não seja apenas uma campanha sobre as crianças, mas um verdadeiro movimento da Igreja e da Sociedade em favor delas. Afinal, cuidar das crianças é cuidar da vida, defender a dignidade humana e construir, desde o presente, uma sociedade verdadeiramente fraterna.

Destaque visual:
O Agir será sempre o maior desafio: fazer com que o cuidado das crianças deixe de ser apenas uma preocupação pastoral e se torne compromisso de toda a Igreja e presença efetiva dos cristãos na transformação da sociedade.
Texto: Aristides da Costa Neto e equipe regional da CF
Fotos: CNBB Regional Oeste 2