Nos dias 20 a 24 de julho de 2026, realizou-se a 52ª Assembleia Regional do CIMI de Mato Grosso, com o tema “Estado, democracia e luta dos povos indígenas”, no Centro Diocesano de Espiritualidade ‘São Paulo Apóstolo’, na cidade de Barra do Garças-MT.

Historicamente esta região foi centro de conflitos violentos no final do séc XIX e começo do séc XX, entre os indígenas Boe-Bororo e Panará, com os seringueiros e colonos. Esses conflitos diminuíram em 1902, com a pacificação feita pela chegada dos Missionários Salesianos na região.

O rio Araguaia faz a divisa entre Goiás e Mato Grosso e, junto com as novas rodovias facilitou a ocupação da região por não indígenas no grande programa ‘Marcha para o Oeste’ e depois com a Fundação Brasil Central que consideravam a região “vazia”. Quem mais sofreu foi o povo Boe-Bororo que ocupava uma área de Goiás, as cabeceiras do rio Araguaia e o Rio das Garças.

Nossa assembleia foi motivada fortemente pelo testemunho dos mártires do CIMI Padre Rodolfo Lukembein e Simão Bororo, e Padre João Bosco Burnier, que há justos 50 anos foram assassinados na região em defesa das terras indígenas e dos direitos e dignidade das pessoas. Também nos acompanhou a memória de esperança de Alcilene Bezerra, vice-presidente do CIMI recém falecida.

A Assembleia contou com aproximadamente 50 participantes, entre missionários/as e convidados/as – especialmente indígenas de vários povos, que reafirmaram seus compromissos com a causa indígena, embora o contexto político e econômico seja adverso.


Segue abaixo o documento final aprovado pela Assembleia:


DOCUMENTO FINAL – 52ª ASSEMBLEIA REGIONAL DO CIMI MATO GROSSO

“Eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância” (Jo 10,10)

Nós, missionários e missionárias do Conselho Indigenista Missionário – CIMI Regional Mato Grosso e indígenas reunidos/as em Assembleia, movidos pelo testemunho dos mártires Padre Rodolfo, Simão Bororo, Padre João Bosco ocorrido há 50 anos e o recente falecimento de Alcilene Bezerra, vice-presidente do CIMI, pela escuta dos povos originários e impulsionados pelo Evangelho da vida, reafirmamos nossa missão profética diante do Estado, da democracia e da luta dos povos indígenas.

O Estado brasileiro, em sua estrutura atual, apresenta-se contraditório: ao mesmo tempo em que a Constituição de 1988 reconhece os direitos originários dos povos indígenas, os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário atuam, muitas vezes, para esvaziar esses direitos.

A democracia brasileira vive sob constante ataque. O avanço de pautas legislativas como a lei 14701 e a mesa de conciliação proposta pelo Supremo Tribunal Federal representam um golpe contra os direitos conquistados. Estes projetos, articulados pelo capital financeiro violam o princípio da dignidade humana e paralisam as demarcações. As Terras Indígenas são patrimônio da União, e o Estado falha em sua obrigação de protegê-las, deixando os povos expostos à violência.

O modelo produtivo do Mato Grosso baseado em falsas soluções como a monocultura, o desmatamento, o uso criminoso de agrotóxicos, o garimpo, a implantação de grandes projetos e a economia verde é gerador de morte, destruição e escassez de água. Os povos indígenas são vítimas diretas dessa lógica, que trata a natureza como mercadoria e a vida como obstáculo ao lucro.

Denunciamos o crescimento do fascismo em nosso país, que se manifesta na criminalização das lideranças e retomadas indígenas, na violência política contra os defensores de direitos humanos, na tentativa de silenciar vozes críticas, na negociação dos direitos constitucionais principalmente contidos nos artigos 231 e 232 e na convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho. O fascismo, em sua lógica autoritária e excludente, alimenta a morosidade do Estado que se torna conivente com a violência e omisso diante dos direitos dos povos originários. O discurso de ódio e a desinformação são usados como ferramentas para deslegitimar as lutas indígenas e justificar a expropriação de seus territórios.

Exigimos a demarcação e desintrusão de todos os territórios indígenas, e a interdição e proteção das áreas onde vivem os povos livres; a garantia de água potável para todas as comunidades indígenas; a proteção territorial e a promoção de economias indígenas.

Reafirmamos nosso compromisso com a construção do Bem Viver. Inspirados pelo sonho dos mártires e pela resistência dos Encantados, seguiremos ao lado dos povos indígenas, na defesa de seus direitos, de seus territórios e de sua autonomia. Contra o fascismo e a morosidade do Estado, respondemos com organização, mobilização e esperança ativa.

Reafirmamos que a luta dos povos indígenas é uma luta de toda a sociedade. Seus territórios são essenciais contra o colapso climático; suas formas de vida são alternativas concretas ao desenvolvimento predatório.

Que a Divina Ruah e os Encantados iluminem nosso caminho na construção da Democracia plena, onde o Estado cumpra seu dever, a Natureza seja respeitada como sujeito de direitos e todos Povos vivam em paz com a Mãe Terra.

Barra do Garças, 23 de julho de 2026

 

Com informações: Conselho Indigenista Missionário (CIMI) – Regional Oeste 2