
Encontro reúne representantes das nove circunscrições eclesiásticas de Mato Grosso e coloca em debate as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil
Por Pe. Renan Dantas – Assessor da Pascom Regional Oeste 2
CUIABÁ (MT) — A Igreja Católica em Mato Grosso reuniu bispos, sacerdotes, diáconos, religiosos e religiosas, seminaristas, leigos, leigas e representantes de pastorais e movimentos para refletir sobre os rumos da evangelização diante das profundas transformações da sociedade. A 38ª Assembleia Regional de Pastoral do Regional Oeste 2 teve início no sábado, 22 de agosto, no Centro Nova Evangelização (CENE), em Cuiabá, com a participação das nove circunscrições eclesiásticas do Estado.
Com o tema “No caminho sinodal, acolhendo as Diretrizes Gerais para a Ação Evangelizadora (2026-2032)”, e o lema retirado do Evangelho de Lucas — “Relataram o que tinha acontecido pelo caminho, e como o haviam reconhecido ao partir o pão” (Lc 24,35) —, a Assembleia colocou no centro das discussões as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE), Documento 114 da CNBB.
A imagem da tenda marcou desde o início a espiritualidade do encontro. Aberta, móvel e sustentada por estacas, ela foi apresentada como símbolo de uma Igreja que acolhe, escuta, discerne e se coloca a caminho.
Na abertura, a Presidência do Regional Oeste 2, formada por Dom Vital Chitolina, SCJ, bispo de Diamantino e presidente do Regional; Dom Maurício da Silva Jardim, bispo de Rondonópolis-Guiratinga e vice-presidente; e Dom Jacy Diniz Rocha, bispo de São Luiz de Cáceres e secretário, acolheu os participantes e destacou aspectos da caminhada da Igreja em Mato Grosso.
Dom Vital também registrou a retomada da participação da Prelazia de São Félix no Regional, acolhendo Dom Lúcio e a realidade eclesial da prelazia. O bispo reforçou a necessidade de que as novas Diretrizes sejam assumidas pelas dioceses e pela prelazia a partir das características e dos desafios próprios de cada realidade.
Durante a abertura, Dom Maurício apresentou ainda aspectos da Carta dos Bispos sobre as eleições de 2026 e falou sobre a abertura do Tribunal Eclesiástico na Diocese de Rondonópolis-Guiratinga. Dom Jacy destacou a beatificação do Beato Nazareno Lanciotti, celebrada em Jauru, em junho deste ano.
DGAE: um horizonte comum para a missão

A principal reflexão do primeiro dia foi conduzida por Dom Paulo Renato, bispo de Barra do Garças. Ao apresentar as novas DGAE, o bispo partiu de uma pergunta simples, mas fundamental: “Por que são Diretrizes?”
A resposta ajudou a situar o documento. As DGAE não foram apresentadas como um conjunto de regras ou determinações, mas como um horizonte comum para a ação evangelizadora da Igreja no Brasil, que precisa ganhar forma concreta nas diferentes dioceses e comunidades.
O processo de elaboração das novas Diretrizes foi apresentado como fruto de um caminho de escuta e participação. Comunidades, pastorais, movimentos e diferentes organismos da Igreja contribuíram para a construção do documento, em sintonia com o caminho sinodal vivido pela Igreja nos últimos anos.

Para Dom Paulo, essa perspectiva está diretamente ligada à própria compreensão da missão da Igreja. O centro da evangelização não é a transmissão de normas ou conceitos, mas o anúncio de uma Pessoa: Jesus Cristo.
O encontro pessoal com Cristo está no núcleo do querigma e conduz ao discipulado. Quem encontra Cristo é chamado também a participar da comunidade e a assumir a missão. Por isso, discipulado e missão não aparecem como duas tarefas separadas, mas como dimensões inseparáveis da vida cristã.
A responsabilidade pela evangelização, nesse sentido, não está restrita aos ministros ordenados. Todo o Povo de Deus é chamado a participar da missão, de acordo com sua vocação, carisma, estado de vida e responsabilidade eclesial.
“Alargar a tenda” para acolher e sair em missão
Um dos momentos centrais da reflexão foi a apresentação da Tenda do Encontro como imagem para compreender a Igreja desejada pelas novas Diretrizes.
A tenda é espaço de acolhida e encontro, mas também é móvel. Pode ser desmontada em um lugar e armada em outro. A imagem expressa uma Igreja que não permanece parada, mas se movimenta para encontrar as pessoas onde elas estão.
Essa mobilidade, porém, não significa ausência de identidade. A tenda possui estacas que garantem sua sustentação. Na reflexão apresentada, elas foram relacionadas à fé, à esperança e à caridade.
A proposta, portanto, não é mudar aquilo que constitui o núcleo da fé, mas ampliar a capacidade de acolher, escutar e dialogar com as diferentes realidades.
Alargar a tenda significa criar espaço para quem chega, aproximar-se de quem está afastado e alcançar as periferias sociais, humanas e existenciais.
A imagem também foi relacionada ao Evangelho de João: “A Palavra se fez carne e armou sua tenda entre nós.” Cristo é apresentado como a verdadeira Tenda do Encontro, presença de Deus no meio da humanidade.
A Igreja, a partir dessa compreensão, não é chamada a produzir uma luz própria, mas a testemunhar a luz recebida de Cristo.
Uma Igreja diante de uma mudança de época
As novas Diretrizes também partem de uma leitura da realidade contemporânea. O desafio, conforme apresentado durante a Assembleia, não é apenas lidar com uma época de mudanças, mas com uma verdadeira mudança de época.
Crise socioambiental, polarização, fragmentação social, enfraquecimento do senso comunitário, transformações culturais e relacionais e o avanço acelerado das tecnologias fazem parte desse cenário.
A inteligência artificial também entrou na reflexão. Para a Igreja, o desafio não consiste apenas em utilizar novas ferramentas, mas em compreender as transformações que elas provocam nas relações humanas e na própria sociedade.
Nesse contexto, uma pergunta ganhou força: o que o Espírito Santo está dizendo à Igreja hoje?
A resposta passa pelo discernimento. A Igreja é chamada a rever métodos e linguagens, renovar sua presença e fortalecer o sentido de pertencimento, sem abandonar o essencial da fé.
Sinodalidade: Caminhar Juntos
No período da tarde, Dom Paulo Renato avançou para os capítulos seguintes das DGAE e aprofundou a compreensão de uma Igreja sinodal.
Sinodalidade foi apresentada como caminhar juntos, escutar o Espírito Santo, buscar a unidade e realizar o discernimento em comunhão.
A reflexão chamou atenção para um dos riscos presentes na vida eclesial: transformar a unidade em uniformidade. A proposta sinodal não busca um pensamento único, mas uma unidade capaz de reconhecer diferentes experiências e sensibilidades.
A imagem do poliedro ajudou a expressar essa realidade: diferentes partes conservam sua originalidade, mas convergem para uma mesma missão.
Comunhão, participação e missão foram apresentadas como pilares inseparáveis do caminho sinodal.
As Diretrizes também ressaltam a importância da diocesanidade, isto é, do sentimento de pertença à Igreja local e da comunhão dentro das Igrejas particulares. Nesse processo, o bispo exerce um papel importante na promoção da unidade.
Leigos, mulheres, jovens e diferentes gerações
Ao abordar o quarto capítulo das DGAE, a Assembleia voltou o olhar para o protagonismo de todo o Povo de Deus.
Os leigos são chamados a atuar não apenas dentro das estruturas eclesiais, mas também na sociedade, na política, no trabalho e na construção do bem comum.
As crianças e os adolescentes foram apresentados não como simples destinatários da ação pastoral, mas como protagonistas da vida da Igreja. As comunidades são chamadas a protegê-los, escutá-los, valorizá-los e criar espaços seguros de participação.
Para as juventudes, o desafio passa pela capacidade de reconhecer sua criatividade, sua busca de sentido, sua sensibilidade espiritual e seu compromisso social.
As mulheres também receberam destaque. Sua presença na transmissão da fé, na catequese, na liderança de serviços e na sustentação da vida comunitária foi reconhecida como essencial para a missão evangelizadora.
Idosos, pessoas com deficiência, vida consagrada e ministros ordenados também foram contemplados na reflexão sobre os diferentes sujeitos da missão.
Catequese, liturgia e opção pelos pobres
No capítulo dedicado aos caminhos da missão, a catequese apareceu como uma das áreas estratégicas para a renovação da evangelização.
A Iniciação à Vida Cristã, inspirada no catecumenato, foi apresentada como eixo capaz de conduzir as pessoas ao encontro com Jesus e à inserção na comunidade.
A proposta envolve novas linguagens, formação permanente dos catequistas, integração das famílias e participação de toda a comunidade. A Igreja é chamada a compreender que a iniciação cristã não é responsabilidade de um único grupo, mas de toda a comunidade.
A liturgia também foi apresentada como caminho de missão. Acolhida, dignidade, simplicidade, boa proclamação da Palavra e homilias mais objetivas foram apontadas como elementos que favorecem a participação.
A reflexão também reafirmou a opção preferencial pelos pobres como dimensão que nasce da fé e do reconhecimento de Cristo nos que sofrem.
A defesa da vida, o cuidado com a Casa Comum e a ecologia integral completaram esse conjunto de compromissos missionários.
Comunicação, cultura digital e inteligência artificial
A comunicação ganhou espaço próprio na reflexão sobre a conversão pastoral.
A Igreja é chamada a utilizar a comunicação para aproximar e não afastar, criar comunhão e ajudar a superar feridas provocadas pela intolerância e pela violência.
O ambiente digital foi compreendido como um verdadeiro espaço humano. Não se trata apenas de uma ferramenta externa à missão, mas de um território onde as pessoas vivem, estabelecem relações, formam opiniões e também procuram sentido.
Por isso, a presença da Igreja nesse ambiente exige criatividade, responsabilidade e discernimento.
A inteligência artificial foi incluída nesse debate. O desafio apresentado foi o de humanizar a tecnologia, colocando a dignidade da pessoa no centro e evitando que os avanços tecnológicos sejam utilizados sem responsabilidade ética.
A memória dos mártires de Mato Grosso
A dimensão missionária também foi vivida por meio da memória dos mártires da terra.
Na noite do primeiro dia, os participantes realizaram uma celebração em memória do Beato Nazareno Lanciotti, do Padre Rodolfo Lunkenbein, de Simão Bororo e do Padre João Bosco Penido Burnier.

Uma procissão ao redor do CENE, cantos, mensagens e o grito de “presente!” recordaram a vida e o testemunho daqueles que entregaram a própria existência em defesa da fé, dos povos e da missão da Igreja em Mato Grosso.
A celebração conectou a memória dos mártires com os desafios atuais da missão: uma Igreja presente junto aos povos, comprometida com a justiça, a dignidade humana e a defesa da vida.
A história do povo Tapaiuna e um novo capítulo de esperança
Outro momento de forte impacto foi a partilha sobre a história do povo Tapaiuna, tradicionalmente conhecido também como “Beiço de Pau”.
A apresentação recuperou episódios de violência, perda territorial, doenças, deslocamento forçado e redução drástica da população indígena. Os relatos apontaram para acontecimentos ocorridos especialmente nas décadas de 1950 e 1960, incluindo episódios de envenenamento e a epidemia de gripe que atingiu a comunidade.
A população, estimada anteriormente entre 900 e mil pessoas, chegou a apenas 41 sobreviventes em condições extremamente precárias.
A história, porém, não foi apresentada apenas como memória de sofrimento. A Assembleia também conheceu o atual processo de reparação.
Segundo os documentos apresentados no encontro, decisão da Justiça Federal, proferida em junho de 2026, reconheceu violações de direitos fundamentais contra o povo Tapaiuna e determinou medidas de reparação, incluindo a demarcação do território tradicional, pedido público de desculpas do Estado e pagamento de indenização por danos morais coletivos.
O desafio agora é transformar a decisão judicial em realidade concreta, diante da atual ocupação das terras e das complexidades sociais, econômicas e ambientais envolvidas.
A Igreja foi chamada a acompanhar esse processo com prudência, diálogo e presença pastoral, respeitando também as diferentes escolhas das famílias Tapaiuna que vivem atualmente junto a outros povos indígenas.
Encaminhamentos: da reflexão à prática

No segundo dia da Assembleia, os participantes foram divididos em grupos para buscar pontos de unidade e encaminhamentos concretos para o Regional Oeste 2.
A metodologia procurou deslocar o debate das particularidades de cada diocese para aquilo que pode ser construído em comum no âmbito regional.

O trabalho foi organizado a partir de três dimensões das DGAE: relações, processos e vínculos, com perspectivas para os anos de 2027, 2028 e 2029.
A proposta foi realizar o discernimento em comunidade, escutando o Espírito Santo e buscando consensos que possam orientar a ação pastoral regional.
Também foram apresentados projetos ligados à educação, à formação, à agroecologia e à comunicação, além de iniciativas da UNIFACC e do ICET.
Entre os projetos apresentados estão a ampliação de bolsas de estudo, a criação do Viveiro Dom Gentil, ações de agroecologia e iniciativas de formação teológica para leigos.
CEAMA e os horizontes da Igreja na Amazônia

Dom Neri José Tondello, bispo de Juína, apresentou durante a Assembleia os resultados da caminhada da Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA).
A apresentação destacou quatro horizontes pastorais: anúncio do Evangelho, crescimento como Igreja sinodal, vivência da ecologia integral e fortalecimento da comunhão e da sustentabilidade.
A proposta busca fortalecer uma Igreja com rosto amazônico, atenta às realidades dos territórios e ao protagonismo dos povos da região.
A CEAMA também trabalha na perspectiva de articular as Igrejas particulares e fortalecer a missão a partir das realidades locais.
Um Regional chamado a caminhar junto

Ao longo dos dois dias, a 38ª Assembleia Regional de Pastoral percorreu diferentes temas, mas manteve uma mesma preocupação: como fazer com que as novas Diretrizes deixem de ser apenas um documento e se transformem em caminhos concretos de evangelização.
O encontro também tratou de temas administrativos e pastorais, do Tribunal Eclesiástico Regional, do CAM 7, previsto para 2029, do 19º Congresso Eucarístico Nacional, que será realizado em Goiânia em 2027, e do calendário pastoral do Regional.
Ao final, a Assembleia reafirmou que a sinodalidade precisa alcançar a vida concreta das comunidades.
Mais do que organizar estruturas, o desafio é fortalecer relações, processos e vínculos capazes de gerar participação e missão.
A imagem da tenda, presente desde a abertura, permaneceu como síntese do encontro: uma Igreja com fundamentos firmes, mas capaz de se movimentar; uma Igreja que acolhe porque escuta, que escuta porque caminha e que caminha porque é enviada em missão.
A 38ª Assembleia Regional de Pastoral do Regional Oeste 2 terminou com a oração de envio e a bênção dos bispos Dom Vital Chitolina, Dom Maurício da Silva Jardim e Dom Jacy Diniz Rocha.
O desafio agora começa nas dioceses e comunidades: alargar a tenda, fortalecer as estacas e transformar o discernimento realizado em caminhos concretos de comunhão, participação e missão.
Informações: Secretaria da 38ª Assembleia Regional de Pastoral – Seminaristas Kaio Vinícius e Thiago Rodrigues.
Fotos: Pe. Renan Dantas