
Iniciado no dia 27 de abril, o encontro foi marcado por uma programação intensa que integrou espiritualidade, formação teológica, reflexão pastoral e partilha fraterna.
Inspirado no lema “A quem iremos? Só tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68) e com o tema “Presbíteros no contexto digital”, o encontro colocou no centro do debate uma das questões mais urgentes da atualidade: como anunciar o Evangelho em uma cultura profundamente marcada pelas redes, pela velocidade da informação e pela transformação das relações humanas. Presbíteros de diferentes regiões participaram representando seus presbitérios, contribuindo com a diversidade de experiências pastorais que caracterizam a vida da Igreja no Brasil.

A assessoria formativa esteve a cargo do padre Arnaldo Rodrigues, que conduziu as reflexões destacando que o ambiente digital exige mais do que presença: exige consciência, identidade e discernimento. Ele ressaltou que o tempo vivido nas redes não é apenas quantitativo, mas intensivo, pois forma mentalidades, interfere nas relações e impacta diretamente a forma como as pessoas percebem a realidade.
Segundo ele, não se trata apenas de estar conectado, mas de compreender como esse ambiente molda comportamentos e exige uma postura crítica e pastoralmente responsável. Ao mesmo tempo, insistiu que o ambiente digital não é neutro e que evangelizar nesse contexto implica coerência entre vida e anúncio, já que a credibilidade do Evangelho depende da autenticidade de quem comunica.
Também alertou que nem toda visibilidade gera comunhão e que muitas dinâmicas digitais favorecem conflitos e superficialidade, exigindo do presbítero maturidade para discernir quando falar, como falar e quando silenciar. Por fim, destacou que a missão da Igreja não é gerar seguidores, mas formar discípulos, lembrando que o ambiente digital também é um espaço real de encontro com pessoas concretas, marcadas por buscas, dores e esperanças.
Entre as contribuições episcopais, Dom Cleocir Bonetti destacou o encontro como experiência de cuidado e recomposição interior, afirmando que o ministério ordenado é um serviço à comunhão e que os presbíteros precisam cuidar uns dos outros para permanecerem fiéis à missão. Utilizando uma imagem bíblica, comparou o encontro a um momento vivido “sob o carvalho de Mambré”,lugar de acolhida, descanso e renovação.

Já Dom Mário reforçou o sentido missionário do encontro, recordando que os presbíteros retornam à “Galileia” do cotidiano, onde o Ressuscitado os precede e os envia novamente à missão. O presidente da Comissão Nacional dos Presbíteros, Dom Ângelo Mezzari, sublinhou o espírito de unidade, gratidão e esperança que marcou toda a experiência vivida em Aparecida.
A dimensão missionária também foi evidenciada com a participação das Pontifícias Obras Missionárias, que apresentaram iniciativas como o CAM 7 – Congresso Americano Missionário, previsto para 2029, em Curitiba, reforçando a necessidade de uma Igreja cada vez mais aberta, missionária e comprometida com a evangelização no contexto contemporâneo.

Um dos momentos mais expressivos do encontro foi a procissão mariana realizada pelos corredores do Santuário até a Basílica, reunindo os presbíteros em oração. O gesto simbolizou a Igreja em caminho, em comunhão e sob a proteção da Mãe Aparecida, reforçando a dimensão espiritual e afetiva que permeou toda a programação.

A Carta final do encontro apresenta um diagnóstico lúcido e exigente sobre o momento atual da Igreja, especialmente no que se refere à presença no ambiente digital. O texto reconhece que vivemos em uma cultura marcada por fluxos contínuos de informação, conexões permanentes e disputas de sentido, definindo o mundo digital como um verdadeiro “areópago contemporâneo”. Ao mesmo tempo, aponta com clareza seus riscos: a perda do silêncio interior, a superficialidade das relações, a polarização crescente e a exposição constante, que pode fragilizar a identidade do presbítero.
Diante disso, os participantes afirmam que a presença da Igreja não pode ser improvisada nem reduzida à lógica da visibilidade. Ao contrário, deve ser fruto de uma vida enraizada em Cristo e marcada pela caridade pastoral. O documento insiste que não existe neutralidade na comunicação: tudo comunica, tudo forma e tudo testemunha. Por isso, cada palavra, imagem e posicionamento no ambiente digital carrega um peso moral e pastoral.
Outro ponto central da carta é a fraternidade presbiteral, apresentada não como estrutura funcional, mas como realidade espiritual e sacramental. O texto reconhece o sofrimento silencioso de muitos presbíteros, marcado pelo cansaço, pela solidão e pelas pressões culturais, e insiste na necessidade de uma cultura de cuidado, na qual pedir ajuda seja compreendido como maturidade e responsabilidade.
A carta também resgata a identidade profunda do ministério presbiteral, recordando que sua unidade se encontra na caridade pastoral, isto é, na entrega ao povo de Deus. Mesmo diante dos desafios do tempo presente, o documento mantém um horizonte claro de esperança, afirmando que é no retorno constante a Cristo que o presbítero reencontra sentido, unidade e alegria — uma alegria pascal, que nasce da cruz, se alimenta da Eucaristia e se manifesta no serviço cotidiano.
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O encerramento do encontro foi marcado pela celebração eucarística presidida pelo cardeal Jaime Spengler, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Em sua homilia, destacou que “a Igreja caminha com os pés dos padres”, sublinhando que é a disponibilidade, a generosidade e a abertura dos presbíteros que tornam possível a vida das comunidades. Retomando o horizonte sinodal, reafirmou comunhão, participação e missão como critérios concretos para a vida eclesial e alertou para os riscos de discursos sedutores, mas desconectados da realidade e das exigências do Evangelho.
Antes da bênção final, Dom Jaime conduziu a assembleia a um momento de silêncio e oração que sintetizou toda a experiência vivida ao longo dos dias. Recordando a vida concreta dos presbíteros — marcada pela liturgia, pelos sacramentos e pela proximidade com o povo — convidou à súplica: “Jesus, Filho do Deus vivo, tem piedade de nós”.
Em seguida, evocando o Evangelho, ampliou a oração: “Jesus, lembra-te de nós”, incluindo catequistas, diáconos, seminaristas, padres, bispos, doentes, desempregados e trabalhadores. Em profundo recolhimento, os participantes foram convidados a apresentar, no íntimo do coração, aqueles que carregam consigo. A pergunta final ecoou como síntese espiritual de todo o encontro: “Jesus… lembra-te de quem?”

O encontro também marcou a apresentação da nova coordenação da Comissão Nacional de Presbíteros (2026–2030), reforçando o caráter nacional e sinodal da missão presbiteral. Assumem a nova coordenação: o presidente Pe. Diego Carvalho (Leste 3); o vice-presidente Pe. Adriano José (Norte 3); o 1º tesoureiro Pe. Derneval José (Nordeste 3); o 2º tesoureiro Côn. Roberto Emílio (Norte 2); o 1º secretário Pe. Fagner Sérgio (Nordeste 2); o 2º secretário Pe. Mauro Lúcio (Leste 2); o 1º conselheiro fiscal Pe. Edson Bantin (Nordeste 1); o 2º conselheiro fiscal Pe. Juvenal Soares (Nordeste 4); e o 3º conselheiro fiscal Pe. Linniker Matheus (Oeste 1).

Encerrado aos pés de Nossa Senhora Aparecida, o encontro reafirma uma convicção central: a missão da Igreja permanece a mesma, mesmo diante das transformações culturais e tecnológicas. O que muda são os caminhos, os meios e as linguagens. Nesse cenário, o ambiente digital não é apenas um instrumento, mas um espaço real de presença, encontro e anúncio. Como sintetiza a carta final, mesmo em meio às tensões do tempo presente, permanece uma certeza: o amor continua sendo a força mais poderosa e transformadora da missão da Igreja.

Fonte: Pe. Renan Dantas – Diocese de Juína
Imagens: Pe. Renan Dantas